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Teologia (parte II)
8. O argumento axiológico, em sua forma mais complexa.

Todas as sensibilidades humanas, no que diz respeito às perfeições da realidade, das qualidades morais, das qualidades estéticas, das qualidades políticas e da busca pela perfeição, em qualquer campo de conhecimento humano, requerem que exista o Valor supremo na direção do qual todos os demais valores apontam, e cujo padrão esses valores seguem como linha diretriz. Há uma subcategoria desse argumento, denominado “argumento henológico”, o qual afirma que há uma espécie de unidade em todos os conceitos de valor, isto é, o Grande Padrão de valor, que age como o alvo e o unificador de todos os valores, a despeito do que essa disciplina porventura envolva. Essa unidade dos valores exige a aceitação da existência do Unificador de todos os valores, que é Deus.

9. O argumento derivado da autoridade.

Os livros sagrados, as experiências místicas que dão conteúdo que dão conteúdo as esses livros sagrados, a tradição histórica da igreja cristã, os escritos e predições orais dos profetas, o cumprimento dessas suas profecias, etc., mostram-nos que existem “autoridades” de natureza religiosa, o que comprova a existência de um Deus que nos transmitiu a autoridade apropriada para representar a sua própria pessoa.

10. O argumento baseado na experiência religiosa.

A experiência religiosa, como regeneração, e as demais experiências místicas, como as curas, diversas experiências psíquicas, ou milagres, etc., provam que deve haver uma realidade na fé religiosa, cujo ponto mais elevado é o Ser supremo que denominamos “Deus”, o qual, também, é a fonte originária válida de toda a experiência religiosa autêntica.

11. O argumento baseado na esperança religiosa.

Existe uma crença universal dos homens na existência de Deus, que os leva a terem “esperança”. A remoção da esperança deste mundo deixaria a raça humana em estado de miséria íntima. Essa esperança é justificada porque é outorgada por Deus, sendo comprovada pelo consenso humano universal. Os homens esperam em Deus, a não ser quando ensinamos ao contrário, por algum sistema perverso, que os condicione a isso.
12. O argumento baseado na realidade dos milagres.

A ciência não conta com qualquer explicação e nem com qualquer teoria geral que explane as muitas maravilhas extraordinárias que se verificam neste mundo. Somente a verdade religiosa pode explicar tais fenômenos. O princípio religioso afirma a existência de Deus como o grande poder que há por detrás dos milagres. Existem leis mais elevadas do que aquelas que são explicadas pela ciência humana, e que podem ultrapassar as supostas limitações, impostas pela ciência natural. Deus é controlador das leis cósmicas, e, se assim quiser fazer; pode agir contrariamente a elas, fazendo intervenção, ultrapassando-as ou utilizando-se de leis superiores a elas, a fim de produzir acontecimentos que desafiam qualquer explicação “lógica”, de conformidade com a lógica científica.


13. O argumento do consensus gentium.

Essas palavras latinas significam “opinião popular”. Sempre fez parte da opinião de todas as culturas humanas que existe algum Ser supremo, ou existem alguns seres divinos. O ateísmo, em contraste com isso, precisa ser aprendido; não ocorre naturalmente a quem quer que seja. Não existe um único ser humano, à face da terra que seja ateu de nascimento. Usualmente os indivíduos aceitam o ateísmo nas escolas seculares e profanas, onde os mestres, inchados de orgulho intelectual, pensam ser suficientes para si mesmos, sem necessitarem de qualquer Poder Supremo. Todavia, em todas as culturas onde a sofisticação do ceticismo ainda não penetrou, à a crença na existência de Deus, ou pelo menos, de vários deuses. A opinião geral da humanidade, entretanto, não nos pode conduzir à natureza exata de Deus, mas, pelo menos pode conduzir-nos à “idéia de existência da divindade” – Deus existe.
Alguns teólogos chamam esse argumento de “argumento da crença universal”. A crença na existência de Deus é praticamente tão difundida quanto a própria raça humana, embora muitas vezes se manifeste em forma pervertida ou grotesca e revestida de idéias supersticiosas. Esta opinião tem sido contestada por alguns que argumentam existirem raças que não têm a menor concepção de Deus. Mas o Sr. Jevons, autoridade no assunto de raças e religiões comparadas, diz que esta opinião, “Como é do conhecimento de todos os antropólogos, já foi para o limbo das controvérsias mortas. . . todos concordam que não existem raças, por mais primitivas que sejam, totalmente destituídas de concepção religiosa! Embora alguém cite exceções, sabemos que a exceção não inutiliza a regra. Por exemplo, se fossem encontrados alguns seres humanos inteiramente destituídos de todo sentimento humano e compaixão, isso não serviria de base para dizer que o homem é essencialmente uma criatura destituída de sentimentos. A presença de cegos no mundo não prova que todos os homens são cegos.” Como disse William Evans: “o fato de certas nações não conhecerem a tabuada de multiplicação não afeta a aritmética.”
Como se originou esta crença universal? A maior parte dos ateus parece imaginar que um grupo de teólogos se tenha reunido em sessão secreta na qual inventaram a idéia de Deus, a qual depois apresentaram ao povo. Mas os teólogos não inventaram Deus como também os astrônomos não inventaram as estrelas, nem os botânicos as flores. É certo que os antigos mantinham idéias erradas acerca dos corpos celestes, mas esse fato não nega a existência dos corpos celestes. E visto que a humanidade já teve idéias defeituosas acerca de Deus, isso implica que existe um Deus acerca do qual podiam ter noções errôneas.



14. O argumento baseado na revelação e no misticismo.

Deus tem achado por bem revelar-se a si mesmo aos homens: e isso ele tem feito por intermédio de visões e sonhos. Essa revelação aparece em forma mais concreta nas Santas Escrituras. O senhor Deus simplesmente dá conhecimento de si mesmo como um dom aos homens, porque sabe que precisam desse conhecimento. Essa revelação se origina em sua graça e sua bondade. Que o misticismo é uma realidade é fato que se pode provar facilmente, através de pesquisas e da mera observação. O impulso que há por detrás de todas as experiências místicas, quer se trate de milagres ou de visões, é a Mente divina. E formas falsas de misticismo não eliminam o que é verdadeiro: e, além disso, qualquer grau de misticismo já serve de prova sobre a existência de Deus. As experiências místicas conseguem descrever Deus, em certo sentido, não sendo meramente uma afirmação de sua existência.

15. O argumento baseado na felicidade do crente.

A profunda felicidade e senso de confiança que têm os crentes em Deus, a alegria e a segurança que a fé teísta confere aos possuidores, servem de provas da validade da crença na existência de Deus.

16. O argumento baseado na melhor crença.

Sendo inquiridores sérios da verdade, sentimos a necessidade de escolher entre as muitas idéias que existem, e, ao sermos defrontados por tal necessidade de escolha, a “melhor fé”, obviamente é a teísta. Essa crença explica melhor a existência da criação, de seu desígnio, das experiências místicas e dos milagres. Isso é uma explicação melhor do que a idéia da mera “chance”, da “evolução” ou da “seleção natural”, ou mesmo da coincidência sem desígnio, das “forças naturais e cósmicas”, que são suas alternativas, a crença em Deus fica melhor fundada, psicologicamente falando, na realidade das coisas, do que o ateísmo, e é muitíssimo mais satisfatória. O ateísmo perde a sua utilidade quando o indivíduo morre.

17. O argumento da aposta, apresentado por Blaise Pascal.

Pascal ensinava que é impossível provar ou negar a existência de Deus, mas dizia que, sob bases pragmáticas, a crença em Deus é superior à descrença, porquanto essa crença agrada a Deus, ao passo que o ateísmo lhe é desagradável. De acordo com essa idéia, quando um homem morre, se porventura descobrir que Deus não existe, ou se ele mesmo simplesmente deixa de existir, nada terá perdido. Por outro lado se um homem, ao morrer, descobrir que Deus realmente existe, então só terá a ganhar com a sua crença teísta. Essa idéia entretanto, não é válida, pois é extremamente imperfeita. Pois Deus existe, e, segundo podemos estar plenamente certos, não é nenhum tolo, o que significa que não ficará satisfeito com alguém que se aferra à crença teísta somente por motivo de vantagens egoísticas. De fato, talvez Deus se sinta mais agradado com um ateu sincero e honesto do e não com um teísta jogador com a sorte. Essa forma de crença é uma hipocrisia, e jamais poderá agradar a Deus. Outrossim, do ponto de vista teológico, a mera crença na existência de Deus não é mais vantajosa do que a crença que têm os poderes demoníacos na existência de Deus, pois os demônios crêem e estremecem.


18. O argumento do teísmo pragmático.


Paralelamente ao argumento anterior, alguns pensam que é pragmaticamente melhor ser alguém religioso, não somente no que tange à questão da crença na existência de Deus, ma também no que diz respeito à questão da prática religiosa. O ateísmo não oferece qualquer futuro a quem quer que seja, e nem mesmo reivindica oferecer isso. É melhor ,portanto, do ponto de vista do pragmatismo prático, lançarmos nossa sorte à religião, com a existência de Deus e da alma, fazendo profissão geral e prática da religiosidade. Se, ao descobrirmos que estávamos equivocados em nossas crenças, nada poderemos com isso. Por outro lado, se alguma parte ou a totalidade das crenças religiosas estiverem de conformidade com a realidade, descobrirmos que fizemos uma acertada decisão, ao seguirmos a fé teísta e as práticas religiosas, porquanto, presumivelmente, obteremos algum mérito com isso. Do ponto de vista evangélico, entretanto, essa “fé pragmática” não se reveste de valor algum, porquanto somente uma fé verdadeira em Jesus Cristo pode transformar os remidos segundo a sua própria imagem. Seja como for, o teísmo pragmático é melhor do que o ateísmo, com o expressão para a existência terrena presente.

19. Deus é a melhor explicação possível para a conjuntura.

A existência de Deus é a melhor explicação possível para tudo quanto está envolvido em todos esses argumentos, considerados como um conjunto. Ao examinarmos a gama inteira das possibilidades, dos argumentos, das teses e das contrateses, o teísmo mostra-se mis convincente do que o ateísmo. Isso é verdade, ainda que não possamos chegar a uma conclusão racional definitiva. A melhor idéia é a teísta, e esse ;é o resultado líquido de todos os argumentos, considerados em sua totalidade.

20. Argumento alicerçado na fé pura.

Alguns cristãos especialmente nas igrejas evangélicas, têm chegado à conclusão de que nenhum argumento “racional” ou “físico” verdadeiramente demonstra a existência de Deus, mas antes, que essa certeza só ocorre através da fé bíblica. Nas igrejas evangélicas, que seguem o ensinamento bíblico, acredita-se que essa fé é conferida pelo próprio Deus, o qual dá, dessa maneira, certeza de sua existência, inteiramente à parte de evidências externas. Alguns crentes chegam mesmo a alegrar-se nessa idéia, rejeitando totalmente quaisquer outras idéias, como se estivessem próximas da blasfêmia, as quais dizem ser necessário ser comprovada a existência de Deus para que nela possamos acreditar. Porém, apesar das escrituras Sagradas em parte alguma se lançarem à tarefa de tentarem provar que Deus existe, contudo, passagens bíblicas como aquela de Rm. 1:20 dão a entender que verdadeiramente existem provas, físicas e racionais, acerca dessa existência. Portanto, não é crime procurarmos delinear a validade de tais provas, pois, para os incrédulos, esse delineamento pode ser muito útil e valioso. Um dos primeiros passos que uma alma pode dar na direção de Cristo, pode ser a crença firme na existência de Deus. Ninguém poderá jamais avizinhar-se de Cristo, segundo um sério ponto de vista evangélico, se for um ateu convicto. (Esse argumento baseado na “fé pura” na realidade é uma variedade do argumento “místico”, que aparece no décimo quarto lugar nesta lista de argumentos sobre a existência de Deus.
Para fortalecer a fé daqueles que já crêem. Eles estudam as provas, não para crer, mas sim porque já crêem. Esta fé lhes é tão preciosa que aceitarão com alegria qualquer fato que a faça aumentar ou enriquecer.

21. O argumento da história.

A marcha dos eventos da história universal fornece evidência de um poder e duma providência dominante. Toda a história bíblica foi escrita para revelar Deus na história, isto é, para ilustrar a obra de Deus nos negócios humanos. “Os princípios do divino governo moral encontram-se na história das nações tanto quanto na experiência dos homens”, escreve D.S. Clarke. (Sal. 75:7; Dn. 2:21; 5:21.) “O protestantismo inglês vê a derrota da Armada Espanhola como uma intervenção divina. A colonização dos Estados Unidos por imigrantes protestantes salvou-os da sorte da América do Sul, e desta maneira salvou a democracia. Quem negaria que a mão de Deus estivesse nesses acontecimentos?” A história da humanidade, o surgimento e declínio de nações, como Babilônia e Roma, mostram que o progresso acompanha o uso das faculdades dadas por Deus e a obediência à sua lei, e que o declínio nacional e a podridão moral seguem a desobediência” (D.L. Pierson). A.T. Pierson, em seu livro, “Os Novos Atos dos Apóstolos” expõe as evidências da dominante providência de Deus nas missões evangélicas modernas.
Especialmente o modo de Deus tratar com os indivíduos fornece provas de sua ativa presença nos negócios humanos. Charles Bradlaugh, que foi em certo tempo o ateu mais notável na Inglaterra, desafiou o pastor, Charles Hugh Price, para um debate. Foi aceito o desafio e o pregador, por sua vez, desafiou o ateu da seguinte maneira: como todos sabemos, Sr. Bradlaugh, “o homem convencido contra a própria vontade mantém sempre seu ponto de vista”, e, visto que o debate, como ginástica mental que é, provavelmente não converterá a ninguém, proponho-lhe que apresentemos algumas evidências concretas da validade das reivindicações do cristianismo na forma de homens e mulheres redimidos da vida mundana e vergonhosa pela influência do cristianismo e pela do ateísmo. Eu trarei cem desses homens e mulheres, e desafio-o a fazer o mesmo.
Se o Sr. Bradlaugh não puder apresentar cem, contra os meus cem, Ficarei satisfeito se trouxer cinqüenta homens e mulheres que se levantem e testifiquem que foram transformados duma vida vergonhosa pela influência dos seus ensinos ateus. Se não puder apresentar cinqüenta, desafio-o a apresentar vinte pessoas que testifiquem com rostos radiantes, como o farão os meus cem, que tenham um grande e novo gozo na sua vida elevada, em resultado dos ensinos ateus. Se não puder apresentar vinte, ficarei satisfeito se apresentar dez. Não, Sr. Bradlaugh, desafio-o a trazer um só homem ou uma só mulher que dê tal testemunho acerca da influência enobrecedora dos seus ensinos. Minhas pessoas redimidas trarão prova irrefutável quanto ao poder salvador de Jesus Cristo sobre as suas vidas redimidas da escravidão do pecado e da vergonha. Talvez, senhor Bradlaugh, essa será a verdadeira demonstração da validade das reivindicações do cristianismo.
O Sr. Bradlaugh retirou o seu desafio!
Para Guy P. Duffield e Nathaniel M. Van Cleave o argumento da história se apóia sobre o alicerce da divina providência. Os estudantes de história, a não ser que sejam cegos ou parciais, irão descobrir a obra da divina providência. Isto não significa que um propósito sábio é visível em todos os eventos. Deve-se ter em conta que o homem é pecador e rebelde e, ate certo ponto, um agente moral livre. Deus não causa cada evento individual, mas está no controle do fluir dos eventos, executando seus propósitos. Ele cumpre suas profecias inspiradas que se acham registradas na sua Palavra. Se alguém estudar a Bíblia junto com a história, irá perceber um modelo divino enfocando Jesus Cristo, o Filho de Deus. Este enfoque não é apenas sobre a vida terrena de Jesus. O propósito de Deus em Cristo é visto na história de Israel e na sua esperança de um redentor (Gn 12:13; Is 52:10-53:12); na encarnação, vida, morte e ressurreição de Cristo; no triunfo da igreja através de múltiplas oposições; e na indestrutibilidade de Israel através dos séculos.
A originalidade de Cristo foi bem expressa por Napoleão em uma carta ao General Bertrand:
“Efeitos divinos me obrigam a crer numa causa divina. É verdade, existe uma causa das causas… existe um ser infinito, comparado com o qual você, general, não passa de um átomo; comparado com o qual eu, Napoleão, com todo o meu gênio, nada sou realmente; puramente nada. Eu o percebo - Deus. Eu o vejo, tenho necessidade dele, creio nele, pior para você. Mas você, general, crerá um dia em Deus. Posso perdoar muitas coisas, mas sinto horror diante de alguém ateu e materialista… os deuses, os legisladores da Índia e da China, de Roma e de Atenas, nada possuem que possa espantar-me sobremaneira…mas isso não acontece com Cristo. Tudo nele me assombra. Seu espírito me faz ficar maravilhado e sua vontade me contunde. Não existe termo de comparação entre Ele e qualquer pessoa no mundo. Ele, em si mesmo, é verdadeiro. Suas idéias e seus sentimentos, as verdades que anuncia, sua maneira de convencer não são explicadas por organização humana, nem pela natureza das coisas. Seu nascimento e a história da sua vida; a profundidade da sua doutrina, que luta com as maiores dificuldades, a mais admirável solução; seu evangelho… sua marcha através das idades e dos reinos, tudo para mim e um prodígio, um mistério insolúvel, que me faz mergulhar num desvaneio do qual não posso escapar, diante de meus olhos está um mistério, o qual não posso negar nem explicar… procuro encontrar em vão na história alguém igual a Jesus Cristo.”




22. O argumento que apresenta o homem como imagem e semelhança de Deus:

A Palavra de Deus declara que o homem foi criado à imagem de Deus. “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1:26-27). Não devemos buscar a imagem de Deus no homem físico, pois Deus é Espírito (Jo 4:24). Em lugar disso, devemos procurar a imagem de Deus no homem espiritual: “...e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou...” (Cl 3:10).
A imagem de Deus no homem é vista no fato de ele ter domínio sobre as criaturas inferiores e especialmente em sua capacidade e desejo ardente de comunhão com Deus. A outra marca da imagem divina é vista na natureza moral do homem, seu senso de dever e responsabilidade, e na posse de uma consciência: “Estes mostram a norma da lei gravada nos seus corações, testemunhando-lhes também a consciência, e os seus pensamentos mutuamente acusando-se ou defendendo-se...” (Rm 2:15). C.S. Lewis diz: “Estes são, portanto, os dois pontos que eu queria ressaltar. Primeiro, que os seres humanos, em toda a terra, têm esta idéia curiosa de que devem comportar-se de certa maneira, e não conseguem livrar-se dela. Segundo, eles na verdade não se comportam deste modo. Eles conhecem a lei da natureza e a quebram. Esses dois fatos são a base de todo pensamento claro a respeito de nós mesmos e do universo em que vivemos.”
Um Deus pessoal nos faz responsáveis por nossa conduta e atitude. Devemos render-nos à vontade dele ou viver com a consciência pesada. É possível cauterizar a consciência ou silencia-la, enganando-nos a nós mesmos. Mas, desse modo, o indivíduo irá então invariavelmente criar seu próprio sistema de valores. A experiência mostrou que o sistema bíblico de ética, afinal de contas, e o mais adequado à natureza moral do homem, criado por Deus.


23. O argumento da Escritura


Esse argumento se apóia sobre as declarações e na exatidão das Sagradas Escrituras. A Bíblia afirma ser a Palavra inspirada de Deus (2 Tm 3:16-17; 2 Pe 1:20, 21; 1 Co 2:12, 13; Tt 1:1-13). Nenhum livro na terra foi tão amplamente aceito como uma mensagem de Deus. Seus oponentes e os céticos lançaram todo tipo de ataque concebível contra ele, mas sua popularidade permanece. Sua exatidão tem sido repetidamente impugnada, mas a pá dos arqueólogos confirma a cada instante a exatidão de alguma passagem posta em dúvida. O Dr. W.F. Albright, reconhecido arqueólogo, escreve: “Nada que tenda a perturbar a fé religiosa do judeu ou do cristão foi descoberto... Descoberta após descoberta têm estabelecido a exatidão de inúmeros detalhes e trazido maior reconhecimento do valor da Bíblia como um livro fonte da história.” Nenhum outro livro se compara com a Bíblia no que diz respeito aos seus ensinos morais e espirituais; escrita há centenas de anos, ela é mais moderna que os jornais de hoje. Nunca deixa de falar com poder, sanando os problemas mais profundos da alma e do espírito.

A SANTÍSSIMA TRINDADE

O Pai incriado, o Filho incriado: o Espírito Santo incriado.
O Pai incomensurável, o Filho incomensurável: o Espírito Santo incomensurável
O Pai eterno, o Filho eterno: o Espírito Santo eterno.
E, mesmo assim, não são três eternos: mas um só eterno.

A Trindade é um mistério. A aceitação reverente do que não é revelado nas Sagradas Escrituras faz-se necessário antes de se perguntar a respeito de sua natureza. A glória ilimitada de Deus deve ser uma forma de nos conscientizar com respeito à nossa insignificância em contraste com aquEle que é “sublime e exaltado”.
Nosso reconhecimento dos mistérios de Deus, especialmente da Trindade, exige que abandonemos a razão! Nada disso. Na Bíblia, de fato, há muitos mistérios, mas “o cristianismo, como ‘religião revelada’, centraliza-se na revelação e a revelação (segundo sua própria definição) toma manifesto em vez de ocultar”.
A razão se vê diante de uma pedra de tropeço quando confrontada pela natureza paradoxal da doutrina trinitariana. “Mas”, asseverou Martinho Lutero, de modo enérgico, “posto que se baseie claramente nas Escrituras, a razão precisa conservar-se em silêncio sobre o assunto; devemos tão-somente crer”.
Por isso, o papel da razão é o de auxiliar, e nunca de dominar (atitude racionalista), a entender as Escrituras, especialmente no tocante à formulação da doutrina da Trindade, Não estamos, pois, tentando explicar Deus, mas, sim, considerar as evidências históricas que estabelecem a identidade de Jesus como homem e também como Deus (em virtude dos seus atos milagrosos e do seu caráter divino) e, ainda, “incorporar a verdade que Jesus tornou válida no que diz respeito ao seu relacionamento eterno com Deus Pai e com Deus Espírito Santo”.
Historicamente, a Igreja formulou a doutrina da Trindade em razão do grande debate a respeito do relacionamento entre Jesus de Nazaré e o Pai. Três Pessoas distintas - o Pai, o Filho e o Espírito Santo - são manifestadas nas Escrituras como Deus, ao passo que a própria Bíblia sustenta com tenacidade o Shema judaico: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4).
A conclusão, baseada nas Escrituras, é que o Deus da Bíblia é (nas palavras do Credo Atanasiano) “um só Deus na Trindade, e a Trindade na Unidade”. Isso soa irracional? Semelhante acusação contra a doutrina da Trindade pode ser, por si mesma, classificada de irracional: “Irracional é suprimir a evidência bíblica em favor da Trindade para favorecer a Unidade, ou a evidência em favor da Unidade para favorecer a Trindade”. “Nossos dados devem ter precedência sobre nossos modelos - ou, melhor, nossos modelos devem refletir de modo sensível a gama inteira dos dados”. Por isso, nosso olhar metodológico deve estar baseado na Bíblia no que diz respeito a relação tênue entre a unidade e a trindade para não polarizarmos a doutrina da Trindade num dos dois extremos: a supressão das evidências em favor da unidade (o que resulta na no unitarianismo, ou seja: que reconhece em Deus somente uma única pessoa) ou o abuso das evidências em favor de triunidade (o que resultaria no triteísmo - três deuses separados).
Uma anáIise objetiva dos dados bíblicos no tocante ao relacionamento entre o Pai, o Filho e o Espirito Santo, revela que essa grandiosa doutrina não é uma noção abstrata, mas, na realidade, uma verdade revelada. Por isso, antes de considerarmos o desenvolvimento histórico e a formulação da teologia trinitariana, examinaremos as evidências bíblicas nas quais a doutrina se fundamenta.


EVIDÊNCIAS BÍBLICAS PARA A DOUTRINA

NO ANTIGO TESTAMENTO


Deus, no Antigo Testamento, é um só Deus, que se revela pelos seus nomes, pelos seus atributos e pelos seus atos. Mesmo assim, o Antigo Testamento lança alguma luz sobre a pluralidade (uma distinção de Pessoas) na Deidade: “Façamos o homem a nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). Que Deus não poderia estar conversando com anjos, ou com outros seres não-identificados, fica evidente no versículo 27 que se refere à criação do homem “a imagem de Deus”. 0 O contexto indica uma comunicação interpessoal divina, que requer uma unidade de Pessoas na Deidade.
Outras distinções pessoais na Deidade são reveladas nos textos que se referem ao “anjo do SENHOR” (hb. Yahweh). Esse anjo é distinguido de outros anjos. É pessoalmente identificado com Javé e, ao mesmo tempo, distinguido dEle (Gn 16.7-13; 18.1-21; 19.1-28; 32.24-30. Jacó diz: “Tenho visto a Deus face a face”, com referência ao anjo do Senhor). Em Isaías 48.16; 61.1; e 63.9,10, o Messias fala. Numa ocasião, Ele se identifica com Deus e o Espírito em união pessoal como os três membros da Deidade. Mas noutra ocasião, o Messias continua (ainda falando na primeira pessoa) a distinguir-se de Deus e do Espírito.
Zacarias lança muita luz sobre o assunto ao falar, em nome de Deus, a respeito da crucificação do Messias: “E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de graça e de súplicas; e olharão para mim, a quem traspassaram; e o prantearão como quem pranteia por um unigênito; e chorarão amargamente por ele, como se chora amargamente peio primogênito” (Zc 12.10). Fica claro que o único Deus verdadeiro está falando na primeira pessoa (“mim”) com referência a ter sido “traspassado”, mas Ele mesmo faz a mudança gramatical da primeira para a terceira pessoa (“ele”) com relação aos sofrimentos do Messias pelo fato de ter sido “traspassado”. A revelação da pluralidade na Deidade fica bem evidente nesse texto bíblico.
Assim saímos das sombras e prefigurações do Antigo Testamento para a luz maior da revelação no Novo Testamento.

NO PERÍODO INTER-TESTAMENTAL


Nesse período houve uma preparação definida, ainda que vaga e sombreada, para a plena revelação da Trindade segundo ela é apresentada no Novo Testamento. A transcendência e a distância de Deus, no pensamento judaico, levaram os homens a buscar um mediador. Filo, sob a apreensão do contraste metafísico absoluto entre Deus e a criação. Muitos reconhecem acertadamente que esse é justamente o ofício do Messias; porém, havia forte tendência para atribuir-se ao Messias celeste a mesma transcendência e distância. Sentia-se, entretanto, que quando o Messias viesse ao mundo, o Espírito santo igualmente, que abandonara a cena profética desde Malaquias, retornaria com poder profético. Embora fossem concebidas vagamente três Pessoas, a questão da relação entre as mesmas era escassamente abordada, e era deixada em completa obscuridade.

NO NOVO TESTAMENTO

João começa o prólogo do seu Evangelho com a revelação do Verbo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jó l.1). B. F. Westcott observa que, aqui, João leva nossos pensamentos para além do começo da Criação, no tempo, para a eternidade. O verbo “era” (gr. en, pretérito imperfeito de eimi, “ser”) aparece três vezes nesse versículo e, mediante todo o versículo, o apóstolo transmite a idéia de que nem Deus, nem o Verbo (gr. Logos), tem começo; sempre existiram em conjunto, e assim continua.
A segunda parte do versículo continua: “E o Verbo estava com Deus pros ton theon”. O Logos existe com Deus, em perfeita comunhão, por toda a eternidade. A palavra pros (com) revela o relacionamento “face a face” que o Pai e o Filho sempre compartilharam. A frase final de João é uma declaração nítida da divindade do Verbo: “E o Verbo era Deus”.
João continua a revelar-nos que o. Verbo entrou na História (1.14) como Jesus de Nazaré, sendo Ele mesmo “o Único Deus, que está ao lado do Pai”, E o Verbo tornou o Pai conhecido (1.18). O Novo Testamento revela, ainda que, pelo fato de Jesus Cristo ter compartilhado da glória de Deus desde toda a eternidade (Jó 17,5), Ele é objeto da adoração reservada somente a Deus: “Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus” (Fp 2.10,11; ver também Êx 20.3; Is 45.23; Hb 1.8).
Foi através do Verbo eterno, Jesus Cristo, que Deus Pai criou todas as coisas (Jó 1.3; Ap 3.14). Jesus se identifica como o soberano “Eu sou” (Jó 8.58; cf. Êx 3.14). Em João 8.59, os judeus sentiram-se impulsionados a pegar em pedras para matar a Jesus em virtude dessa reivindicação. Tentaram fazer a mesma coisa mais tarde depois de haver Ele declarado em João 10.30: “Eu e o Pai somos um”. Os judeus que o escutaram consideraram-no blasfemo: “Sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo” (Jó 10.33; cf. Jo 5.18).
auto identifica Jesus como o Deus que provê todas as coisas: “Ele é antes de todas a coisas, e todas as coisas subsistem por ele” (Cl 1.17). Jesus é o “Deus Forte” que reinará como Rei no trono de Davi, e o tornará eterno (Is 9.6,7). Seu conhecimento é perfeito e completo. Pedro falou assim a nosso Senhor: “Senhor, tu sabes tudo” (Jó 21.17). O próprio Cristo disse: “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27; cf. Jó 10.15).
Jesus agora está presente em todos os lugares (Mt 18.20), e é imutável (Hb 13.8).Ele compartilha este título com o Pai: “o Primeiro e o Último” (Ap 1.17; 22.13). Jesus é o nosso Redentor e Salvador (Jó 3.16,17; Hb 9.28; 1 Jó 2.2), nossa Vida e Luz (Jó 1.4), nosso Pastor (Jó 10.14; 1 Pe 5.4), aquele que nos justifica (Rm 5.1), e que virá em breve como “REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES” (Ap 19.16). Jesus é a Verdade (Jó 14.6) e o Consolador, cujo conforto e ajuda transbordam em nossa vida (2 Co 1.5) Isaías também o chama nosso “Conselheiro” (Is 9.6), e Ele é a Rocha (Rm 9.33; 1 Co 10.4). Ele é santo (Lc 1.35) e habita naqueles que lhe invocam o nome (Rm 10.9,10; Ef 3.17).
Tudo quanto se pode dizer a respeito de Deus Pai, também pode ser dito a respeito de Jesus Cristo. “Em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9). “Cristo... é sobre todos, Deus bendito eternamente” (Rm 9.5). Jesus falou de sua plena igualdade com o Pai: “Quem me vê a mim vê o Pai... estou no Pai, e o Pai, em mim” (Jó 14.9·11).
Jesus reivindicava plena divindade para o Espírito Santo: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jó 14.16). Ao chamar o Espírito Santo, allon parakleton (“outro Ajudador do mesmo tipo que Ele mesmo”), Jesus afirmou que tudo quanto pode ser afirmado a respeito de sua natureza pode ser dito a respeito do Espírito Santo. Por isso, a Bíblia dá testemunho da divindade do Espírito Santo como a Terceira Pessoa da Trindade.
O Salmo 104.30 revela o Espírito Santo como o Criador: “Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra”. Pedro se refere a Ele como Deus (At 5.3,4), e o autor da Epístola aos Hebreus chama-o “Espírito eterno” (Hb 9.14).
A exemplo de Deus, o Espírito Santo possui os atributos da Deidade. Ele tem conhecimento de todas as coisas: “O Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus... Ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus” (1 Co 2.10,11). Ele está presente em todos os lugares (Sl 139.7,8).Embora o Espirito Santo distribua dons entre os cristãos, Ele mesmo permanece sendo “um só” (1 Co 12.11); Ele é constante na sua natureza. Ele é a Verdade (Jó 15.26; 16.13; 1 Jo 5.6). Ele é o Autor da Vida (Jó 3.3-6; Rm 8.10) mediante o renascimento e a renovação (Tt 3.5) e nos sela para o dia da redenção (Ef 4.30).
O Pai é nosso Santificador (1 Ts 5.23), Jesus Cristo é nosso Santificador (1 Co 1.2), e o Espírito Santo é nosso Santificador (Rm 15.16). O Espírito Santo é nosso “Conselheiro” ao 14.17; 1 Co 3.16,17; 6.19; 2 Co 6.16) Em Isaías 6.8-10, o profeta indica que Deus está falando, e Paulo atribui a mesma passagem ao Espírito Santo (At 28.25,26). No que tange a isso, João Calvino observa: “Realmente, onde os profetas usualmente dizem que as palavras que pronunciam são as do Senhor dos Exércitos, Cristo e os apóstolos as atribuem ao Espírito Santo cf. 2 Pe 1.21”. Calvino conclui: “Segue-se, portanto, que quem é o autor preeminente das profecias é verdadeiramente Jeová Yahweh”. “O conceito do Deus Trino e Uno acha-se somente na tradição judaico-cristã”. Esse conceito não surgiu mediante a especulação dos sábios deste mundo, mas através da revelação outorgada passo a passo na Palavra de Deus. Em todos os escritos dos apóstolos, a Trindade é implícita e tomada como certa (Ef 1.1-14; 1 Pe 1.2). Fica claro que o Pai, o Filho e o Espírito Santo, existem eternamente como três Pessoas distintas, mas as Escrituras também revelam a unidade dos três membros da Deidade.
As Pessoas da Trindade têm vontades separadas, porém nunca conflitantes (Lc 22.42; 1 Co 12.11). O Pai fala ao Filho, empregando o pronome da segunda pessoa do singular: “Tu és meu Filho amado; em ti me tenho comprazido” (Lc 3.22). Jesus se oferece ao Pai pelo Espírito (Hb 9.14). Declara que veio “não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jó 6.38).
O nascimento virginal de Jesus Cristo revela o inter-relacionamento entre os três membros da Trindade, O relato de Lucas diz: “E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35).
O único Deus é revelado como a Trindade na ocasião do batismo de Jesus Cristo. O Filho subiu das águas. O Espírito Santo desceu como pomba. O Pai falou dos Céus (Mt 3.16, 17). Por ocasião da criação, a Bíblia menciona o envolvimento do Espírito (Gn 1.2). O autor da Epístola aos Hebreus, porém, declara explicitamente que o Pai é o Criador (Hb 1.2), e João demonstra que a criação foi realizada “por meio do Filho” (Jó 1.3; Ap 3.14). Quando o apóstolo Paulo anuncia aos atenienses que Deus “fez o mundo e tudo que nele há” (At 17.24), a única conclusão a que podemos razoavelmente chegar (juntamente com Atanásio) é que Deus é “um só Deus na Trindade, e a Trindade na Unidade”.
A ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos é outro exemplo notável do relacionamento dentro da Deidade Trina e Una na redenção. Paulo declara que o Pai de Jesus Cristo ressuscitou nosso Senhor dentre os mortos (Rm 1.4; cf. 2 Co 1.3). Jesus, contudo, declarou enfaticamente que ressuscitaria seu próprio corpo da sepultura na glória da ressurreição (Jó 2.19-21). Noutro texto, Paulo declara que Deus, mediante o Espírito Santo, ressuscitou Cristo dentre os mortos (Rm 8.11; cf. Rm 1.4). Lucas coroa teologicamente a ortodoxia trinitariana ao registrar a proclamação do apóstolo Paulo aos atenienses de que o único Deus ressuscitou a Cristo dentre os mortos (At 17.30,31).
Jesus coloca os três membros da Deidade no mesmo plano ao ordenar aos seus discípulos: ”Ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19).
O apóstolo Paulo, judeu monoteísta treinado pelo grande erudito rabínico Gamaliel, hebreu de hebreus; segundo a lei, fariseu (Fp 3.5), deu o carimbo definitivo a teologia trinitiniana, conforme a sua saudação a igreja em Corinto: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com vós todos” (2 Co 13.14). Os dados oferecidos pela Bíblia levam-nos decididamente à conclusão de que, dentro da natureza do único Deus verdadeiro, há três Pessoas, sendo que cada uma é coeterna, co-iguale co-existente.
O teólogo ortodoxo subordina humildemente os seus pensamentos sobre a teologia trinitariana aos dados revelados na Palavra de Deus de maneira bem semelhante ao físico quântico ao formular a teoria paradoxal das partículas de ondas:

Os físicos quânticos concordam entre si que as entidade subatômicas são uma mistura de propriedades de ondas (W), de propriedades de partículas (P), e de propriedades quânticas (h). Os elétrons de alta velocidade, ao serem atirados através de um filme metálico, ou de cristal de níquel (como raios catódicos rápidos ou até mesmo como raios-B), difratam como raios-X. Em princípio, o raio-B é igual à luz solar empregada numa experiência de dupla ranhura ou biprísmica. A difração é um critério de comportamento semelhante a raios nas substâncias; toda a teoria clássica das ondas baseia-se nisso. Além desse comportamento, porém, há muito tempo que os elétrons vêm sendo considerados partículas com carga elétrica. Um campo magnético transversal defletirá um feixe de elétrons e seu padrão de difração. Somente as partículas comportam-se dessa maneira; toda a teoria eletromagnética depende disso. Para explicar todas as evidências, os elétrons devem ser tanto partículas quando ondulatórios grifos nossos. Um elétron é um Pwh.

A analogia entre a Trindade e o Pwh ilustra muito bem as precauções preliminares desse capítulo, ou seja: embora o teólogo sempre deva esforçar-se por conseguir a racionalidade na formulação teológica, ele também deve preferir a revelação às restrições finitas da lógica humana. A Escritura, e tão somente ela, é o ponto de partida para a teologia da Igreja Cristã.


A FORMULAÇÃO HISTÓRICA DA DOUTRINA DA TRINDADE

Embora Calvino estivesse falando de outro assunto doutrinário, sua advertência é igualmente aplicável a formulação trinitariana: “Se alguém, sem muita autoconfiança, tentar desvendar os seus mistérios, não conseguirá satisfazer a sua curiosidade, e entrará num labirinto do qual não achará nenhuma saída”.
De fato, a formulação histórica da doutrina da Trindade é apropriadamente caracterizada como um labirinto terminológico, no qual muitos caminhos levam a becos sem saída, a heresias.
Os quatro primeiros séculos da Igreja Cristã eram dominados por um único tema: o conceito cristológico de Logos. Esse conceito é exclusivamente joanino, e se acha no prólogo do Evangelho de João e na sua Primeira Epístola. A controvérsia eclesiástica daqueles tempos focalizava-se na pergunta: “O que João quer dizer com seu uso da palavra Logos?” A controvérsia atingiu seu auge no século IV, no Concílio de Nicéia (325 d.C.).
No século II, os pais apostólicos tinham uma cristologia pouco desenvolvida. O relacionamento une as duas naturezas em Cristo, a humana e a divina, não é claramente articulado nas suas obras. A doutrina da Trindade aparece de forma subentendida nos seus tratados de cristologia, porém não explícita.
Os grandes defensores da fé que havia na Igreja Primitiva (Irineu, Justino Mártir) referiam-se a Cristo como o Logos eterno. Nessa época, porém, o conceito do Logos parece ter sido entendido como um poder ou atributo eterno de Deus que, de alguma maneira, inexplicável, habita em Cristo. Um conceito de Logos eternamente pessoal, em íntima relação com o Pai, ainda não havia sido definido ainda.

Irineu Contra Os Gnósticos

Entramos no labirinto eclesiástico do desenvolvimento histórico da teologia trinitariana, seguindo nos passos de Irineu. Ele era bispo de Lião, na Gália, e discípulo de Policarpo que, por sua vez, era discípulo do apóstolo João. Em Irineu, portanto, temos um vínculo direto com a doutrina apostólica. Irineu começou a participar de debates teológicos em fins do século II. É mais conhecido por causa dos seus argumentos contra os gnósticos. Sua grande obra, Contra Heresias, tem sido uma fonte primária de defesa contra as influências espiritualmente malogradas do gnosticismo.
Irineu encaminhou a Igreja, positivamente, ao declarar a unicidade de Deus, que é o Criador dos céus e da terra. Seu compromisso com o monoteísmo protegeu a Igreja contra o perigo do politeísmo, que a levaria a um beco sem saída. Irineu também foi cauteloso no que se refere à especulação gnóstica quanto à maneira de o Filho ter sido gerado pelo Pai.
Os gnósticos especulavam continuamente a respeito da natureza de Cristo e da sua relação com o Pai. Alguns gnósticos classificavam Cristo no seu panteão de deuses (intermediários espirituais entre a Mente Divina e a Terra), e nisto, trivializavam a sua divindade. Outros (docetistas) negavam a plena humanidade de Cristo, insistindo que Ele não poderia ter se encarnado (apenas parecia ser um homem) e sofrer e morrer na Cruz (cf. Jó 1.14; Hb 2.14; 1 Jo 4.2,3).
Irineu resistia fervorosamente os ensinos dos gnósticos, mediante uma cristologia desenvolvida de modo impressionante, enfatizando tanto a plena humanidade de Jesus Cristo, quanto a sua plena divindade. Na sua defesa da cristologia, Irineu respondeu aos gnósticos com duas frases cruciais que posteriormente reapareceram em Calcedônia: “Filius dei filius hominis factus: (o Filho de Deus tornou-se filho do homem), e Jesus Christus vere homo, vere deus: (Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus)”.
Declarações assim exigiam um conceito pelo menos rudimentar do trinitarismo. De outra forma, a alternativa teria sido o diteísmo (dois deuses) ou o politeísmo (muitos deuses). Declara-se, todavia, que Irineu subentendeu um “trinitarianismo econômico”. Noutras palavras: “Ele só lida com a divindade do Filho e do Espírito no contexto da sua revelação e atividade salvífica, ou seja: no contexto da ''economia'' (plano) da salvação”.

Tertuliano Contra Praxeas

Tertuliano, o “bispo pentecostal de Cartago” (160 - c. de 230), fez contribuições de valor inestimável para o desenvolvimento da ortodoxia trinitariana. Adolph von Hamack, por exemplo, insiste que foi Tertuliano que preparou o terreno para o desenvolvimento subsequente da doutrina trinitariana ortodoxa.
O tratado de Tertuliano, “Contra Praxeas”, contém 50 páginas de polêmica vigorosa contra um certo Praxeas que, supostamente, introduziu em Roma a heresia do monarquianismo ou do patripassianismo. O monarquianismo ensina a existência de um só Monarca, que é Deus. Por conseguinte, é negada a plena divindade do Filho e do Espírito. No entanto, para preservar as doutrinas da salvação, os monarquianos chegaram a conclusão de que o Pai, como Deidade, foi crucificado pelos pecados do mundo. Essa é a heresia chamada patripassianismo. Por isso, segundo Tertuliano disse a respeito de Praxeas: “Ele tinha expelido a profecia e introduzido a heresia, tinha exilado o Paracleto e crucificado o Pai”.
Tertuliano informa-nos que, enquanto a heresia de Praxeas varria a Igreja, os crentes de uma forma geral continuavam vivendo na sua simplicidade doutrinária.” Embora estivesse
resoluto quanto a advertir a Igreja contra os perigos do monarquianismo, entrou na controvérsia em cima da hora, quando a heresia estava se tomando predominante no pensamento dos cristãos.
A tarefa de Tertuliano foi criar um meio por onde fluíssem as implicações inerentes da teologia trinitariana na consciência da Igreja. Embora Tertuliano seja tido como o primeiro erudito a empregar o termo “Trindade”, não é correto dizer, que ele “haja inventado” a doutrina, mais que “escavou” na consciência da Igreja e retirou daí os pensamentos trinitarianos inerentes que já estavam presentes. B. B. Warfield comenta: “Tertuliano tinha de..; estabelecer a divindade verdadeira e completa de Jesus... sem criar dois deuses... E considerando o sucesso que conseguiu nesse aspecto, deve ser reconhecido como o pai da doutrina eclesiástica da Trindade”.
Tertuliano toma explícito o conceito de uma “Trindade econômica” (semelhante ao conceito de Irineu, mas com uma definição mais explícita). Enfatiza a unidade de Deus, ou seja: que existe uma só substância divina, um só poder divino sem separação, divisão, dispersão ou diversidade há, porém, uma distribuição entre as funções, uma distinção entre as Pessoas.

Orígenes e a Escola Alexandrina

No século II a.C., Alexandria, no Egito, substituiu Atenas como o centro intelectual do mundo greco-romano. Posteriormente, academias cristãs floresceram nessa cidade. Alguns dos maiores estudiosos da Igreja antiga pertenciam a escola alexandrina.
A igreja avançou ainda mais através do labirinto teológico da formulação doutrinária com o trabalho do célebre Orígenes (c. de 185-254). A explicação sobre a eternidade do Logos pessoal foi feita pela primeira por Orígenes. Com ele, começou a emergir a doutrina ortodoxa da Trindade, embora não fosse cristalizada na sua formulação (progredindo além do conceito “econômico” de Tertuliano) a não ser no começo do século IV no Concílio de Nicéia ·(325 d.C.)
Opondo-se aos monarquianos (também chamados units), Orígenes propôs sua doutrina da geração eterna do Filho (chamada filiação) Ligava essa geração à vontade do Pai, e assim subentendia a subordinação do Filho ao Pai. A conclusão da doutrina da filiação aconteceu não somente pelas designações “Pai” e “Filho”, mas também pelo fato de o Filho ser chamado, de modo consistente, “o Unigênito” (Jó .14, 18; 3.16, 18; 1 Jo 4.9).
Segundo Orígenes, o Pai gera eternamente o Filho e, portanto, nunca está sem Ele. O Filho é Deus, porém ele subsiste (segundo a linguagem teológica posterior, que se relaciona coma existência de Deus) como uma pessoas distinta do Pai. O conceito oferecido por Orígenes da geração eterna preparou a Igreja para entender que a Trindade subsiste em três Pessoas em vez de consistir em três partes.
Orígenes deu expressão teológica ao relacionamento entre o Pai e o Filho (posteriormente afirmada no Conflito de Nicéia) como homoousios to patri: “de uma só substância ou essência com o Pai” O modo de se entender a personalidade, essencial para a fórmula trinitariana ortodoxa, ainda era imprecisa. O termo latim persona, que significa “papel” ou “ator”, não ajudava no esforço teológico de se entender o Pai, o Filho e o Espírito como três Pessoas, em vez de meros papéis diferentes de Deus. O conceito teológico de hypostases, ou seja: da distinção de Pessoas dentro da Deidade (em contraste com a unidade de substância ou de natureza dentro da Deidade, chamada “consubstancialidade” e que se relaciona com a homousia), permitiu a formulação paradoxal da teologia trinitariana.
A doutrina de Orígenes a respeito da geração eterna do Filho era uma polêmica contra a noção de que houvera um tempo quando o Filho não existia. Seu conceito da “consubstancialidade ressaltava a igualdade entre o Filho e o Pai. No entanto, surgiram dificuldades no pensamento de Orígenes por causa do conceito da subordinação apresentado na linguagem do Novo Testamento, e da idéia do papel de submissão do Filho em relação ao Pai, embora a plena divindade do Filho fosse ainda mantida. O que é crítico para a nossa compreensão “é entender a subordinação no sentido de que podemos chamar de econômico”, e não num sentido que se relacione com a natureza da própria existência de Deus. Por isso: “O Filho submete-se a vontade do Pai e executa o seu plano (oikonomia), mas não é por isso inferior ao Pai na sua natureza”.
Orígenes era inconsistente na sua formulação do relacionamento entre o Pai e o Filho, e apresentava o Filho como um tipo de deidade de segunda categoria, distinto do Pai quanto à sua Pessoa, mas inferior a Ele quanto á existência. Orígenes ensinava essencialmente que o Filho devia a sua existência a vontade do Pai. Essa oscilação no tocante ao conceito do subordinacionismo provocou uma reação maciça dos monarquianos.


O MONARQUIANISMO DINÂMICO: A PRIMEIRA TENTATIVA FRACASSADA

Os monarquianos procuravam preservar o conceito da unicidade de Deus - a monarquia do monoteísmo. Focalizavam a eternidade de Deus como o único Senhor, ou Soberano, em relação à sua criação.
O monarquianismo apareceu em dois tipos diferentes: Dinâmico e Modalísticoianismo Dinâmico e Modalístico. O monarquismo dinâmico (também chamado Monarquianismo Ebionita, Monarquianismo Unitaniano ou Monarquianismo Adocionista) antecedeu o Monarquianismo Modalístico.
O Monarquianismo Dinâmico negava qualquer noção de uma Trindade eternamente pessoal. A escola monarquiana dinâmica era representada pelos Alogi, homens que rejeitavam a cristologia do Logos. Os Alogi baseavam a sua cristologia exclusivamente nos Evangelhos Sinóticos, e repudiavam a cristologia do Evangelho de João porque suspeitavam que havia concepções helenísticas no prólogo do seu Evangelho.
Os monarquianos dinâmicos argumentavam que Cristo não era Deus desde toda a eternidade, mas que se tomara Deus em certo momento do tempo. Embora existissem diferenças de opinião quanto ao momento exato determinado para a deificação do Filho, a opinião generalizada era que a exaltação do Filho ocorreu no seu batismo quando, então foi ungido pelo Espírito Cristo, pois, mediante a sua obediência, tomou-se o divino Filho de Deus. Cristo era considerado o Filho adotivo de Deus ao invés de ser tido como o eterno Filho de Deus.
O Monarquianismo Dinâmico também ensinava que Cristo foi exaltado progressivamente, ou dinamicamente, à condição de Deidade. O relacionamento entre o Pai e o Filho era percebido não em termos da sua natureza e existência, mas em termos morais. Ou seja: não se considerava que o Filho possuísse igualdade de natureza com o Pai (homoousios: homo significa “idêntico” e ousios significa “essência”). Os monarquianos dinâmicos postulavam que entre Jesus e os propósitos de Deus existe um relacionamento meramente moral.
Um dos defensores antigos do Monarquianismo Dinâmico era o bispo de Antioquia no século III, Paulo de Samosata. Surgiu um grande debate entre a Igreja Oriental e a Escola Antioquiana, de um lado, e a Igreja Ocidental e a Escola Alexandrina, de outro lado. O enfoque do debate era o relacionamento entre o Logos e o homem Jesus.
Harold O. I. Brown observa que “a forma que o adocionismo do Monarquianismo Dinâmico encontrou para conservar a unidade da Deidade foi sacrificando a divindade de Cristo”. O Monarquianismo Dinâmico é, portanto, uma tentativa fracassada de sair do labirinto doutrinário, que termina num beco sem saída, em uma heresia.
Paulo de Samosata teve Luciano como sucessor no Monarquianismo Dinâmico. O aluno mais destacado de Luciano era Ário. Este estava por trás da controvérsia ariana que resultou na convocação dos bispos em Nicéia e na elaboração do famoso Credo Trinitariano (325 d.C.). Antes, porém, de considerarmos o Ananismo, examinemos o segundo tipo de Monarquianismo: o Modalismo.


O MONARQUIANISMO MODALÍSTICO: A SEGUNDA TENTATIVA FRACASSADA

As influências principais que estavam por trás do Monarquianismo Modalístico eram o gnosticismo e o neoplatonismo. Os monarquianos modalísticos concebiam o Universo como uma unidade, todo organizado, manifestado numa hierarquia de modos. Os modos (assemelhados a círculos concêntricos) eram considerados vários níveis de manifestações de realidade que emanavam de Deus, “O Único” que existe como “existência pura”, como o Ser Supremo no ponto mais alto da escala hierárquica (influência neoplatônica) .
Os monarquianos modalísticos ensinavam que a realidade diminuía-se a medida que uma emanação se distanciava de “O Único”. Por isso, a categoria mais baixa da existência seria a matéria física do universo. Embora a matéria ainda fosse considerada parte de “O Único”, do qual emana, os modalistas consideravam que ela existia numa forma inferior (influência gnóstica). Pela proposição inversa, pensava-se que a realidade aumentava, ao progredir em direção a “O Único” (também chamado a Mente Divina).
É fácil ver as implicações panteísticas desse conceito da realidade, posto que tudo quanto existe, supostamente tem sua origem nas emanações (modos ou níveis da realidade) da essência do próprio Deus. Alguns modalistas empregavam uma analogia do sol e dos seus raios. Os raios solares são da mesma essência do sol, mas não são o sol. Os modalistas supunham que, quanto mais longe os raios ficam do sol, tanto menos são pura luz solar, e que embora os raios participem da mesma essência do sol, são inferiores a este, sendo meras projeções dele.
A aplicação cristológica dessa cosmovisão identificava Jesus como uma emanação de primeira ordem da parte do Pai, reduzindo-o a um nível abaixo do Pai no tocante a natureza de sua existência ou essência. Embora Jesus fosse considerado a mais sublime ordem de existência a parte de “O Único, Ele não deixava de ser inferior a ele, e dependia dele quanto B sua existência, embora fosse superior aos anjos e a raça humana”
Sabélio (século III) era o maior defensor do monarquianismo modalístico, e o responsável pelo seu maior impacto sobre a Igreja. Originando-se nele a analogia do sol e dos seus raios, negou ser Jesus deidade no mesmo sentido eterno que o Pai o é. Essa idéia levou ao termo teológico homoiousios. O prefixo homoi, significa “semelhante”, e a raiz, ousios, significa “essência”. Sabélio, portanto, argumentava que a natureza do Filho era apenas semelhante à do Pai; não era portanto idêntica à do Pai.
Sabélio foi condenado como herege em 268, no Concílio de Antioquia. A diferença entre homo (“idêntico”) e homoi (“semelhante”) talvez pareça trivial, mas a letra “i” é a diferença fundamental entre as implicações panteísticas do sabelianismo (confundir Deus com a sua criação) e a plena divindade de Jesus Cristo, à parte da qual ficariam grandemente prejudicadas as doutrinas da salvação. O Monarquianismo Modalístico, ao abandonar a plena Divindade e Personalidade de Cristo e do Espírito Santo, foi também uma tentativa fracassada de sair do labirinto doutrinário.


ARIANISMO: A TERCEIRA TENTATIVA FRACASSADA

Embora Ário fosse aluno de Luciano, e, portanto, participasse da linha do Monarquianismo Dinâmico proclamado por Paulo de Samosata, foi alem deles na complexidade teológica. Foi criado em Alexandria, onde também foi ordenado presbítero pouco depois de 311, apesar de ser um discípulo da tradição antioquiana. Nos meados de 318, despertou a atenção de Alexandre, o novo arcebispo de Alexandria. Este o excomungou em 321 por causa de suas opiniões heréticas a respeito da Pessoa, da natureza e da obra de Jesus Cristo.
Ário esforçou-se por ser restaurado à igreja, não por arrependimento, mas a fim de que suas opiniões a respeito de Cristo se tomassem a teologia oficial da Igreja. Nesse esforço, procurou a ajuda de alguns dos seus amigos mais influentes, inclusive Eusébio de Nicomédia e o renomado historiador eclesiástico Eusébio de Cesaréia, bem como vários bispos asiáticos. Continuou ensinando sem a aprovação de Alexandre. Suas especulações provocaram muitos debates e confusão na Igreja.
Pouco depois da excomunhão de Ário, Constantino passou a ser o único imperador de todo o império romano. Constantino ficou muito desgostoso ao descobrir que a Igreja estava vivendo tamanho caos devido a controvérsia ariana que, inclusive, ameaçava a estabilidade política e religiosa do império. Apressou-se então por convocar o primeiro concílio ecumênico, o Concílio de Nicéia, em 325.
Ário ressaltava que Deus Pai é o único Monarca e, portanto, que só Ele é eterno. Deus é “ingênito”. ao passo que tudo o mais, inclusive Cristo, é “gerado”. Ário asseverava, incorretamente, que a idéia de ser “gerado” transmite o conceito de ter sido criado. Ao mesmo tempo, deu-se ao trabalho de separar-se das implicações panteísticas da heresia sabeliana, ao insistir que Deus não tinha nenhuma necessidade interna de criar. Disse, também, que Deus criou uma substância (lat. substantia) independente, que Ele empregou para criar todas as demais coisas. Essa substância independente, primeiramente criada por Deus, acima de todas as outras coisas, era o Filho.
Ário propôs que a incomparabilidade do Filho é limitada ao fato de ser a primeira e maior criação de Deus. A encarnação do Filho é concebida, no pensamento ariano, como a união entre a substância criada (o Logos) com um corpo humano. Ensinava que o Logos ocupava o lugar da alma dentro do corpo humano de Jesus de Nazaré.
Harnack tem razão ao observar que Ário “é monoteísta rigoroso somente no que diz respeito à cosmologia; como teólogo é politeísta”. Ário, noutras palavras, na cosmologia reconhecia uma única Pessoa, que é Deus; mas na prática, estendia a adoração (reservada para Deus somente) a Cristo, o mesmo Cristo que declarara (em outro contexto) ter sido criado.
A cristologia de Ário reduzia Cristo a uma criatura e, como conseqüência, negava a obra salvífica do Filho de Deus. Com isso, o arianismo foi também uma outra tentativa fracassada de sair do labirinto doutrinário. Pelo contrário, entrou por um corredor sem saída.

A ORTODOXIA TRINITARIANA: SAINDO DO LABIRINTO

Trezentos bispos da Igreja Ocidental (alexandrina) e da Igreja Oriental (antioquiana) reuniram-se em Nicéia,” no grande concílio ecumênico, que procuraria definir com precisão teológica a doutrina da Trindade. O propósito do concílio era tríplice: (1) esclarecer os termos usados para articular a doutrina trinitariana; (2) desmascarar e condenar os erros teológicos que estavam presentes em vários seguimentos da Igreja; e (3) elaborar um documento que estivesse em harmonia com os princípios bíblicos e as convicções compartilhadas pela Igreja.
O bispo Alexandre estava pronto para a luta contra Ário. Os arianos estavam confiantes de que seriam vitoriosos. Eusébio de Nicomédia preparou um documento, no qual continha o ponto de vista defendido pelos arianos, que foi confiantemente, apresentado ainda no inicio do concílio. Por ter negado a divindade de Cristo, provocou a indignação da maioria dos presentes que, com firmeza, rejeitou o documento. Em seguida, Eusébio de Cesaréia (que não era ariano, embora fosse representante da Igreja Oriental) elaborou durante o debate um credo que se tomaria o modelo para o Credo de Nicéia.
O bispo Alexandre (e os alexandrinos em geral) ficou muito preocupado com as opiniões de Ano, pois elas poderiam afetar a salvação pessoal, caso Cristo não fosse plenamente Deus no mesmo sentido que o Pai o é. Para levar o homem à plena reconciliação com Deus, argumentava Alexandre, Cristo forçosamente tem de ser Deus.
O Bispo Alexandre reconhecia a linguagem da subordinação no Novo Testamento, especialmente as referências a Jesus como “Unigênito” do Pai. Indicava que o termo “gerado” deve ser entendido do ponto de vista judaico, pois os que empregavam o termo na Bíblia eram hebreus. O uso hebraico do termo visa ressaltar a preeminência de Cristo. (Paulo fala nestes termos, empregando a palavra “primogênito” não com referência à origem de Cristo, mas aos efeitos salvíficos da sua obra de redenção (ver Cl 1,15,18.)
Alexandre respondeu a Ário, argumentando que a condição de o Filho ser o Unigênito é antecedida nas Escrituras, conforme mostra João 1.14 (o Filho é o Unigênito da parte do Pai), que indica que Ele compartilha da mesma natureza eterna de Deus (assim se harmoniza com a “geração eterna” do Filho, segundo Orígenes). Aos ouvidos de Ário, que não se retratou, isso soava como um reconhecimento de que Cristo fora criado. Estava se esforçando desesperadamente por livrar a teologia das implicações modalísticas que, segundo as palavras posteriormente atribuídas ao seu opositor principal, Atanásio, incorriam no perigo de “confundir as Pessoas entre si”. Era, portanto, crucial fazer a distinção entre Cristo e o Pai.
O bispo Alexandre prosseguiu, declarando que Cristo é “gerado” pelo Pai, mas não no sentido de emanação ou criação. Teologicamente, o grande desafio da Igreja Ocidental era a explicação do conceito de homoousia sem cair na heresia modalística.
Atanásio geralmente recebe o crédito de ter sido o grande defensor da fé no Concílio de Nicéia. A parte maior da obra de Atanásio, porém, foi consumada depois desse grande concílio ecumênico.

Atanásio era inflexível, e embora deposto pelo Imperador em três ocasiões durante sua carreira eclesiástica, lutava com valentia em favor do conceito de Cristo ser da mesma
essência (homoousios) que o Pai, e não meramente semelhante ao Pai quanto à sua essência (homoiousios). Durante o seu turno como bispo e defensor da ortodoxia (conforme revelou ser), era praticamente “Atanásio contra o mundo”.
A escola alexandrina acabou triunfando sobre os arianos, e Ário voltou a ser condenado e excomungado. Na fórmula confessionária da doutrina da Trindade em Nicéia, Jesus Cristo é o “Filho Unigênito de Deus; gerado de seu Pai antes da fundação do mundo, Deus de Deus, Luz de Luz, Verdadeiro Deus de Verdadeiro Deus; gerado, não feito; consubstancial com o Pai”.
Posteriormente, a Igreja viria a empregar o termo “proceder” em lugar de “geração” ou “gerado”, com o propósito de expressar a subordinação salvífica do Filho ao Pai. O Filho procede do Pai. Um tipo de primazia ainda é atribuída ao Pai com relação ao Filho, mas essa primazia não é cronológica; o Filho sempre existiu como o Verbo. Mesmo assim, o Filho foi “gerado” pelo Pai ou “procedeu” do Pai, e não o Pai do Filho.
Esse “proceder” do Filho em relação ao Pai (já no século VIII, chamada “filiação”) é entendido teologicamente como um ato necessário da vontade do Pai, de modo que fique impossível existir o conceito do Filho não provindo do Pai. Daí, a “procedência” do Filho estar eternamente no presente, um ato que perdura, nunca terminando. O Filho, portanto, é imutável (não sujeito a mudança, Hb 13.8), assim como o Pai é imutável (Ml 3.6). A filiação do Filho, certamente, não é no sentido de ter sido gerada outra pessoa com a sua divina essência, pois o Pai e o Filho são igualmente Deidade e, portanto, da “mesma” natureza indivisível. O Pai e o Filho (com o Espírito) existem juntos em subsistência pessoal (o Filho e o Espírito são pessoalmente distintos do Pai na sua existência eterna).
Embora a exposição das complexidades lingüísticas do Credo de Nicéia pareça frustrante para nós hoje, levando-se em conta a distância de 1.600 anos, é importante considerarmos a necessidade crucial de se manter a fórmula paradoxal do Credo de Atanásio: “Um só Deus na Trindade, e a Trindade na Unidade”. A exatidão teológica é critica, pois os termos ousia, hupostasis, substantia e subsistência nos oferecem um entendimento conceptual do que é a ortodoxia trinitariana, como no caso do Credo de Atanásio: “O Pai é Deus, o Filho é Deus, e o Espírito Santo é Deus. E, porém, não são três deuses, mas um só Deus”
Entre 361-81, a ortodoxia trinitariana passou por mais refinamentos, mormente no tocante ao terceiro membro da Trindade, o Espírito Santo. Em 381, em Constantinopla, os bispos foram convocados pelo Imperador Teodócio, e as declarações da ortodoxia de Nicéia foram reafirmadas. Além disso, houve menção explícita do Espirito Santo em termos de deidade, como o “Senhor e Doador da vida, procedente do Pai e do Filho; o qual, com o Pai e o Filho juntamente é adorado e glorificado; o qual falou pelos profetas”.
O título “Senhor” (gr. kurios), empregado nas Escrituras em alguns textos para atribuir e explicitar a divindade, é destinado aqui (no Credo de Nicéia-Constantinopla) ao Espírito Santo. Logo, aquEle que procede do Pai e do Filho ao 15.26) subsiste pessoalmente desde a eternidade dentro da Deidade, sem divisão ou mudança quanto a sua natureza (Ele é essencialmente homoousios com o Pai e o Filho).
As propriedades pessoais (as operações interiores de cada Pessoa dentro da Deidade) atribuídas a cada um dos membros da Trindade são assim entendidas: o Pai é ingênito; o Filho é gerado; e o Espírito Santo procede dEles. A insistência nessas propriedades pessoais não é tentar explicar a Trindade, mas fazer a distinção entre as fórmulas ortodoxas trinitarianas e as fórmulas heréticas modalísticas.
As distinções entre os membros da Deidade não se referem a sua essência ou substância, mas ao relacionamento. Noutras palavras: a ordem de existência na Trindade, no tocante ao ser essencial de Deus, está espelhada na Trindade salvífica. “São, portanto, três, não na posição, mas no grau; não na substância, mas na forma; não no poder, mas na sua manifestação”.
O processo contínuo da pesquisa da natureza do Deus vivo cede lugar, a essa altura, à adoração. Juntamente com os apóstolos, os pais da igreja, os mártires e os maiores teólogos no decurso da história da Igreja, temos de reconhecer que “toda a boa teologia termina com uma doxologia” (cf. Rm 11.33-36). Considere esse hino clássico de Reginald Heber:

Santo! Santo! Santo! Deus Onipotente!
Tuas obras louvam teu nome com fervor;
Santo! Santo! Santo! Justo e compassivo!
És Deus triúno, excelso Criador!


RESUMO SOBRE AS OPINIÕES DE IMPORTANTES
FILÓSOFOS E TEÓLOGOS SOBRE A TRINDADE

1. Orígenes: no século III D.C. ele brincou-nos com uma formulação ortodoxa da Trindade, antes dela, tornar-se generalizada na Igreja cristã. Em sua opinião, o Filho e o Espírito Santo, embora da mesma essência do Pai, são-Lhe subordinados quanto à posição.

2. Plotino: advogava uma doutrina trinitariana segundo a qual concebia o Um, o Nous e a Alma do Mundo, como seus três elementos. Emanações seriam a explicação para o problema da manifestação e das relações existentes na criação. Algumas de suas declarações anteciparam fórmulas cristãs posteriores.

3. Sabélio: acreditava em uma forma de unitarismo, dizendo que o Pai, o Filho e o Espírito Santo seriam sucessivas manifestações desse Ser, cumprindo os diferentes papéis de Criador, Redentor e Doador da Vida.

4. Ário; rejeitava o conceito que afirma que o Filho é da mesma natureza do Pai (homoousia), mas promovia a idéia de que o Filho era de natureza similar (homoiousia) à do Pai. Ver sobre Arianismo.

5. O concílio de Nicéia declarou-se oficialmente em favor da idéia da “mesma natureza” o que fez o trinitarianismo tornar-se a posição ortodoxa. Isso ocorreu em cerca de 325 D. C.

6. Os capadócios: Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno, trabalharam em fórmulas ortodoxas da Trindade, e a declaração resultante foi oficializada pelo concílio de Constantinopla, em 381 D. C. Essa declaração asseverava que os membros da Trindade são três hipóstases de uma só e de uma mesma essência divina.

7. Agostinho: ensinava que a Trindade é refletida no ser humano, porque o homem foi criado à imagem de Deus. A contraparte humana de Deus ele via no ser, no conhecimento e no amor, bem como em atributos divinos.

8. Anselmo: dizia que a mente racional do homem é a imagem da Trindade do homem. Com base nisso, todas as formas de verdade podem ser conhecidas, sem qualquer investigação empírica.

9. Gilberto de Poitiers: falava acerca da Unidade de Deus em um Ser Puro, mas também dizia que Deus é Triúno, em uma espécie diferente de análise.

10. Tomás de Aquino: aceitava a ação do trinitarismo ortodoxo, afirmando, porém, que essa noção só pode ser aceita pela fé, visto que não há qualquer explicação racional para a mesma.


FILÓSOFOS E TEÓLOGOS QUE FIZERAM VÁRIAS OBJEÇÕES
À DOUTRINA ORTODOXA SOBRE A TRINDADE


1. Jacó Boehme: aceitava essa doutrina, mas fazia-a derivar-se do estado primeiro de onde teriam procedido todos os seres. Na verdade, algumas de suas expressões eram claramente panteístas, conforme verifica-se com a maior parte dos místicos que se deixa envolver pela idéia da Unidade de todas as coisas.

2. John Milton: cria que o Filho e o Espírito Santo soa seres criados pelo Deus único, pelo que não seriam iguais a ele, nem quanto à natureza e nem quanto à posição.

3. Sweedenborg: dava valor ao trinitarismo ortodoxo, mas também levava em conta várias trindades importantes na fé religiosa, como os três graus do ser, na pessoa de Deus.

4. Schelling: seguia Boehme na crença que a Trindade teria evoluído a partir de um estado primeiro.

5. Feuerbach: pensava que a Trindade é uma projeção do próprio homem, uma tentativa para explicar a infinitude através de suas faculdades da razão, da vontade e do amor.

6. Jung: pensava que a quaternidade, e não a trindade, é que é o símbolo religioso básico e apropriado.

7. Outras trindades e tríades: é deveras surpreendente observar quantas fés religiosas, desde os tempos mais remotos têm desenvolvido a idéia das tríades divinas. Temos apresentado uma detalhada apresentação sobre esse fato, no artigo intitulado Tríades (Trindades) na Religião. Parece estar em foco um conceito primitivo, comum a todos os homens, e que se foi retirando em diversas culturas, ao longo da história da humanidade.



A TRINDADE E A DOUTRINA DA SALVAÇÃO

As opiniões não trinitarianas, tais como o modalismo e o arianismo, reduzem a doutrina da salvação a uma charada divina. Todas as convicções cristãs básicas que se centralizam na obra da Cruz pressupõem a distinção pessoal dos membros da Trindade. Refletindo, podemos perguntar se é necessário crer na doutrina da Trindade para ser salvo. A resposta histórica e teológica é que a Igreja não tem usualmente exigido uma declaração explícita de fé na doutrina da Trindade para a pessoa ser batizada. Mas a igreja certamente espera uma fé implícita no Deus Trino e Uno como aspecto essencial do nosso relacionamento pessoal com os papéis distintivos de cada uma das Pessoas da Deidade, na obra salvífica em prol da humanidade.
A doutrina da salvação (inclusive a reconciliação, a propiciação, a redenção, a justificação e a expiação) depende da cooperação dos membros distintivos do Deus Trino e Uno (Ef. 1.3-14), Por isso, renunciar deliberadamente a doutrina da Trindade ameaça gravemente a nossa esperança de salvação pessoal. As Escrituras incluem todos os membros da raça humana na condenação universal do pecado (Rm 3.23), e por isso, todos “precisam da salvação; a doutrina da salvação, requer um Salvador adequado, ou seja: uma cristologia adequada. Uma cristologia sadia exige um conceito satisfatório de Deus, isto é, uma teologia especial e sadia - que nos traz de volta a doutrina da Trindade”.
O conceito modalístico da natureza de Deus deixa totalmente abolida a obra mediadora entre Deus e as pessoas. A reconciliação (2 Co 5.18-21) subentende deixar de lado a inimizade ou a oposição. Qual inimizade é deixada de lado? As Escrituras revelam que Deus está em inimizade contra os pecadores (Rm 5.9), e que as pessoas, nos seus pecados, também estão em inimizade contra Deus (Rm 3.10-18; 5.10).
O Deus Trino e Uno é revelado na Bíblia de modo explícito na redenção dos pecadores e na sua reconciliação com Deus. Deus “envia” o Filho ao mundo (Jo 3.16,17). A sombra do Calvário, Jesus se submete com obediência a vontade do Pai: “Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26.39). O relacionamento sujeito-objeto entre o Pai e o Filho fica claramente evidente aqui. O Filho suporta a vergonha do madeiro maldito trazendo a paz (reconciliação) entre Deus e a humanidade (Rm 5.1; Ef 2.13-16). Enquanto a vida se esgota rapidamente do seu corpo, Jesus, no Calvário, olha para o céu, e pronuncia suas últimas palavras: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23.a6). Se duas pessoas distintivas não forem reveladas aqui, no ato salvífico da cruz, esse evento seria uma mera charada de um único Cristo (que só poderia ser neurótico).
No Modalismo, o conceito da morte de Cristo como uma satisfação infinita está perdido. O sangue de Cristo é o sacrifício pelos nossos pecados (1 Jo 2.2). A doutrina de propiciação tem a conotação de um aplacar ou evitar a ira mediante um sacrifício aceitável. Cristo é o Cordeiro sacrificial de Deus (Jo 1.29). Por causa de Cristo, a misericórdia de Deus é oferecida em vez da ira que merecemos por causa dos nossos pecados. Sugerir, porém, como faz o Modalismo, que Deus é uma só Pessoa e que faz de si mesmo a si mesmo uma oferta pelo pecado, estando Ele ao mesmo tempo irado e misericordioso, deixa parecer que Ele é caprichoso. Noutras palavras: a Cruz seria um ato sem sentido no que diz respeito ao conceito de uma oferta pelo pecado.
O apóstolo João identifica Jesus como nosso Paracleto (ajudador ou conselheiro). Temos, portanto, alguém que fala com o Pai em nossa defesa (1 Jo 2.1). Agir assim pressupõe um Juiz que é diferente do próprio Jesus, antes de Ele desempenhar semelhante papel. Porque Cristo é o nosso Paracleto: “Ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (Jo 2.2). Temos, portanto, plena segurança da nossa salvação porque Cristo, nosso Ajudador, é também a nossa Oferta pelo pecado.
Jesus veio ao mundo não “para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10.45). O conceito de “resgate” e de suas palavras cognatas nas Escrituras é usado com referência a um pagamento que garante a libertação de presos. A quem Cristo pagou o resgate! Se for negada a doutrina ortodoxa da Trindade (negando-se uma distinção entre as Pessoas da Deidade, conforme o quer o Modalismo), Cristo teria de ter pago o resgate ou à raça humana ou a Satanás. Posto que a humanidade está morta em transgressões e em pecados (Ef 2.1), nenhum ser humano teria o direito de exigir que Cristo lhe pagasse resgate. Sobraria, portanto, Satanás para fazer a extorsão de Cristo, em nível cósmico. Nós, porém, nada devemos a Satanás. E a idéia de Satanás exigir resgate pela humanidade é blasfêmia, por causa das suas implicações dualistas (a idéia de que Satanás possui poder suficiente para extorquir de Cristo a própria vida deste; ver João 10.15-18).
Pelo contrário: o resgate foi pago ao Deus Trino e Uno para satisfazer as plenas reivindicações da justiça divina contra o pecador caído. Tendo o Modalismo rejeitado o trinitarianismo, a heresia modalística perverte, de modo correspondente, o conceito da justificação. Embora mereçamos a justiça de Deus, somos justificados pela graça mediante a fé em Jesus Cristo somente (1 Co 6.11). Tendo sido justificados (tendo sido declarados sem culpas diante de Deus) mediante a morte e ressurreição de Jesus, somos, portanto, declarados justos diante de Deus (Rm 4.5,25). Cristo declara que o Espirito é “outra” Pessoa distinta de si mesmo, porém do “mesmo tipo” (allon, Jo 14.16). O Espirito Santo emprega a obra do Filho no novo nascimento (Tt 3.5), santifica o cristão (1 Co 6.11) e nos dá acesso (Ef 2.18), mediante o nosso Grande Sumo Sacerdote, Jesus Cristo (Hb 4.14-16), a presença do Pai (2 Co 5.17-21).
Um Deus que muda inteiramente seus atos é contrário a revelação da natureza imutável do Todo-Poderoso (M13.6). Semelhante Modalismo é deficiente no que diz respeito salvação, pois nega a alta posição sumo-sacerdotal de Jesus Cristo. As Escrituras declaram que Cristo é o nosso intercessor divino a destra de Deus, nosso Pai (Hb 7.23-8.2).
Fica claro que a doutrina essencial da expiação vicária, na qual Cristo carregou nossos pecados na sua morte, depende do conceito trinitariano. O Modalismo subverte o conceito bíblico da morte penal e vicária de Cristo como satisfação da justiça de Deus e, em última análise, anula a obra da Cruz.
A cristologia ariana é condenada pelas Sagradas Escrituras. O relacionamento entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo fundamenta-se na natureza divina que compartilham entre si, e que, em última análise, é explicada em termos da Trindade. “qualquer que nega o Filho também não tem o Pai; e aquele que confessa o Filho tem também o Pai” (1 Jo 2.23). O reconhecimento apropriado do Filho requer a fé na sua divindade, bem como na sua humanidade. Cristo, como Deus, é suficiente para satisfazer a justiça do Pai; como homem, Ele cumpriu a responsabilidade moral da humanidade diante de Deus. Na obra da Cruz, a justiça e a graça de Deus nos são reveladas. A eterna perfeição de Deus e as imperfeições pecaminosas da humanidade são reconciliadas mediante o Deus-Homem, Jesus Cristo (G1 3.11·13). A heresia ariana, na sua negação da plena divindade de Cristo, está sem Deus Pai (1 Jo 2.23) e, portanto, sem nenhuma esperança de vida eterna.

A NECESSIDADE TEOLÓGICO-FILOSÓFICA DA TRINDADE


As propriedades (qualidades inerentes) eternas e a perfeição absoluta do Deus Trino e Uno são decisivas para o conceito cristão da soberania de Deus sobre a sua criação. Deus, sendo Trindade, é completo em si mesmo (soberano), e, consequentemente, a criação é um ato livre de Deus, e não uma ação necessária de sua existência. Por essa razão, “antes de ‘no princípio’ existia algo diferente de uma situação estática”.
A fé cristã oferece uma revelação clara e compreensível de Deus, proveniente de fora da esfera do tempo, pois Deus, como Trindade, tem desfrutado de eterna comunhão e comunicação entre suas três Pessoas distintas. O conceito de um Deus pessoal e que se comunica, desde toda a eternidade, está arraigado na teologia trinitariana. Deus não existia em silêncio e de forma estática para então, certo dia, optar por romper a tranqüilidade daquele silêncio e falar. Pelo contrário: a comunhão eterna dentro da Trindade é essencial para o conceito da revelação. (A alternativa de um Ser divino solitário que murmura de si para si na sua solidão é um pouco inquietante.) O Deus Trino e Uno tem se revelado à humanidade, dentro da humanidade, de modo pessoal e proposicional.
A personalidade de Deus, como Trindade, também é a fonte e significado da personalidade humana. “Sem semelhante fonte”, observa Francis Schaeffer, “sobra tão-somente para os homens uma personalidade que provém do impessoal (com o acréscimo do tempo e do acaso)”. Por toda a eternidade, o Pai amava o Filho, o Filho amava o Pai, e o Pai e o Filho amavam o Espírito. “Deus é amor” (Jo 4.16). Logo, o amor é um atributo eterno. Por definição, o amor é necessariamente compartilhado com outro, e o amor de Deus é um amor que fez que com Ele doasse a si mesmo. Por isso, o amor eterno dentro da Trindade outorga sentido real ao amor humano (1 Jo 4.17).









B I B L I O G R A F I A

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Robson Brito, Pr.

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